Introdução
“A memória é um dos mais importantes processos psicológicos, pois além de ser responsável pela nossa identidade pessoal e por guiar em maior ou menor grau nosso dia a dia, está relacionada a outras funções corticais igualmente importantes, tais como a função executiva e o aprendizado.
Se entramos no carro para ir para a faculdade, temos necessariamente que nos lembrar para onde estamos indo. Lembrar envolve diretamente a memória.
Em outras situações da vida, somos capazes de identificar comportamentos automáticos que estão, também, intrinsecamente relacionados à memória. Voltando ao exemplo do carro, muitas pessoas (aquelas com um tempo considerável de prática) não estão atentas aos seus movimentos enquanto estão ao volante e dirigem perfeitamente. Acontece ainda de a pessoa fazer o mesmo trajeto para o trabalho há tanto tempo, que, não raro, chega ao seu destino sem se lembrar do percurso que tomou. Isso se dá porque realizamos tão repetidamente certas atividades que é como se nosso corpo memorizasse os movimentos e pudesse realizá-los automaticamente, sem que nós tenhamos que estar conscientes dos mesmos.”
Quem foi?
Eric Richard Kandel nasceu em 7 de novembro de 1929, em Viena, na Áustria, em uma família judia de classe média. Em sua autobiografia, ele relata que sua infância foi profundamente marcada pelo contexto político da década de 1930. Embora Viena ainda fosse um dos maiores centros culturais e intelectuais da Europa, também vivia um período de crescente autoritarismo e antissemitismo.
Em 1939, com o agravamento da perseguição nazista, a família conseguiu emigrar para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Nova York. De acordo com Kandel, ele afirma que essas experiências deixaram marcas profundas e despertaram sua curiosidade sobre a memória humana. Ele explica que as lembranças desse período permaneceram extremamente vívidas ao longo de toda a sua vida, tornando-se algumas de suas memórias mais intensas.
Inicialmente, Kandel não pretendia seguir carreira na biologia. Ao entrar na Universidade Harvard, escolheu estudar História e Literatura porque desejava compreender como uma sociedade tão desenvolvida culturalmente havia permitido a ascensão do nazismo. Durante esse período, passou a se interessar mais pela psicanálise de Sigmund Freud, acreditando que ela poderia explicar o comportamento humano de uma forma mais profunda. Esse interesse o levou a cursar medicina na Universidade de Nova York, com a intenção de tornar-se psiquiatra.
Durante a faculdade de Medicina, porém, Kandel percebeu que compreender a mente humana exigia entender também o funcionamento biológico do cérebro. Influenciado por pesquisadores da neurobiologia, passou a dedicar-se ao estudo do sistema nervoso, buscando responder a uma questão que o acompanharia durante toda a carreira: como as experiências vividas são registradas no cérebro e transformadas em memórias? Essa mudança de perspectiva marcou o início de sua trajetória como neurocientista e deu origem às pesquisas que, anos mais tarde, revolucionariam a compreensão científica sobre a aprendizagem e a memória.
Quando Eric Kandel iniciou sua carreira científica, a neurociência vivia um período de importantes avanços. Nas décadas anteriores, pesquisadores já haviam demonstrado que o sistema nervoso era formado por neurônios individuais e explicado como essas células se comunicavam por meio de sinais elétricos e químicos. Apesar desses progressos, ainda permanecia sem resposta uma das questões mais importantes da época: como a aprendizagem e a memória eram formadas no cérebro.
Nesse período, diferentes áreas buscavam compreender o funcionamento da mente humana. A psicologia estudava a aprendizagem e o comportamento por meio de experimentos, enquanto a psicanálise procurava explicar os processos mentais e as motivações humanas. No entanto, essas abordagens ainda não conseguiam relacionar esses fenômenos às mudanças que ocorriam nas células nervosas.
Segundo o artigo The Neurobiology of Learning and Memory, a neurociência da época já possuía uma sólida base construída por pesquisadores que haviam esclarecido a estrutura dos neurônios e os mecanismos da transmissão sináptica. Faltava compreender de que maneira uma experiência poderia produzir alterações duradouras nas conexões entre essas células, permitindo a formação da memória.
Eric Kandel queria compreender como a memória era formada no cérebro. Embora os cientistas já soubessem que pessoas e animais eram capazes de aprender, ainda não entendiam quais mudanças ocorriam nos neurônios para que uma experiência fosse armazenada como memória. Seu objetivo era descobrir os mecanismos biológicos responsáveis pela aprendizagem e pela formação das memórias de curto e longo prazo.
Descobertas
Eric Kandel demonstrou que a aprendizagem provoca alterações nas conexões entre os neurônios (sinapses). Além disso, mostrou que memórias de curto prazo e de longo prazo são formadas por mecanismos biológicos diferentes: enquanto as primeiras dependem de mudanças temporárias na comunicação entre neurônios, as memórias de longo prazo exigem ativação de genes, produção de proteínas e alterações estruturais nas sinapses. Essas descobertas revelaram, pela primeira vez, os mecanismos moleculares responsáveis pela formação da memória.
Impacto na ciência
As pesquisas de Eric Kandel transformaram a neurociência ao demonstrar que a memória possui uma base biológica e que o aprendizado modifica fisicamente as conexões entre os neurônios. Seus estudos estabeleceram os mecanismos moleculares da aprendizagem, tornando-se referência para pesquisas sobre desenvolvimento cerebral, plasticidade neural e doenças que afetam a memória. Em reconhecimento a essa contribuição, recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 2000.
As pesquisas de Eric Kandel mudaram a forma como a ciência compreende a aprendizagem e a memória ao demonstrar que esses processos possuem uma base biológica. Seus estudos mostraram que aprender não significa apenas adquirir informações, mas também provocar mudanças nas conexões entre os neurônios, mostrando a capacidade de plasticidade do cérebro ao longo da vida. Esse conhecimento fortaleceu o conceito de plasticidade cerebral e influenciou diferentes áreas, como a neurociência, a educação e a psicologia. Além disso, suas descobertas continuam orientando pesquisas sobre desenvolvimento cognitivo e estratégias de ensino, reforçando a importância da repetição, da prática e de experiências significativas para a consolidação da aprendizagem.
Curiosidade
Uma das maiores curiosidades sobre as pesquisas de Eric Kandel é que elas começaram a partir de um molusco marinho chamado Aplysia. Em entrevista à revista Superinteressante, Kandel explica que, quando iniciou seus estudos, pouco se sabia sobre os mecanismos da memória. Por isso, decidiu investigar um organismo com um sistema nervoso mais simples, acreditando que seria mais fácil compreender como a aprendizagem ocorria.
Referências
- SciELO — Memória: Aspectos Neuropsicológicos e Neuroanatômicos.
- Society for Neuroscience — The History of Neuroscience: Eric R. Kandel.
- The Neurobiology of Learning and Memory.
- Superinteressante — Eric Kandel.
- Nobel Prize — Eric R. Kandel – Facts.
- Eduvem — Neurociência do Aprendizado: Eric Kandel.


